sábado, 15 de setembro de 2012


A dor eventual é o preço da vida: passagem, seguro e pedágio.”

“Andamos tão desencantados que ser decente parece virtude, ser honesto ganha medalha e ser mais ou menos coerente merece aplausos.”

"Com as perdas, só há um jeito: perdê-las. Com os ganhos, o proveito é saborear cada um como uma boa fruta de estação."

“Esta experiência, esta vida é nossa única chance de sermos nós mesmos.”

“Mudar, por pouco que seja, faz parte da nossa pequena guerra individual e cotidiana.”

"Meu território é outro... faço parte da manada que corre para o impossível!"

“Os nossos sonhos e sustos sopram em nossos ouvidos quando menos esperamos.”

“Que a gente se divirta sem se matar, que ame sem se contaminar, que aprenda sem se enganar, que viva sem se vender.”

“Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto: qualquer sinal é um bom presságio.”

“Tanta gente bandida vivendo feito rei, e tanta gente boa crucificada quando quer fazer o bem e consertar o mal.”

15/9/1938 Lya Luft: romancista, poeta, tradutora, professora universitária e colunista.

"As conversas são sempre perigosas quando se tem algo a ocultar."

“A melhor hora para planejar um livro é enquanto lava-se a louça.”

“A essência da vida é andar para a frente; sem possibilidade de fazer ou tentar marchar para trás. Na realidade, a vida é uma rua de sentido único.”

"Gosto de viver. Algumas vezes me sinto desesperadamente miserável, atormentada pela aflição, mas mesmo diante disso eu compreendo que estar viva é uma coisa grandiosa."

“Ganhar uma guerra é tão desastroso quanto perdê-la.”

“Há sempre um admirável novo mundo, mas só para algumas categorias especiais de pessoas. As felizes. Aquelas que trazem dentro de si mesmas a criação desse mundo. “

"Nada mais curioso do que os hábitos. Quase ninguém sabe que os tem."

"Não reconhecemos os momentos realmente importantes da vida até ser demasiado tarde."

“Não acho que a necessidade é a mãe da invenção - uma invenção surge diretamente da indolência, possivelmente também da preguiça. Para poupar-se trabalho.”

"O arqueólogo é o melhor marido que uma mulher pode ter; quanto mais velha ela fica, mais interesse ele tem por ela."

“O segredo de seguir em frente é começar a trabalhar.”

"Os velhos pecados têm sombras grandes."

15/9/1890 – Agatha Christie, escritora inglesa de romances policiais e peças teatrais.

 “A trama é o carro-chefe da literatura. Tudo mais, o estilo, a maneira de contar, os experimentos, deve estar a seu serviço.”

“Acho que seria uma felicidade poder ler todos os bons livros que existem. É doloroso saber que não leremos todos eles.”
“Creio que parte de meu amor a vida eu devo ao meu amor aos livros.”
 “Chega um momento na vida em que, não importa o se faça, só nos aborrecemos. Sobra então uma maneira de recuperar o prestigio: morrer.”

15/9/1914 - Bioy Casares, escritor argentino.


“Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar”

“A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente
"A esperança é uma droga alucinógena".

"A alma é uma borboleta, há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose."

“A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável.”

“A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que perdeu.”

"Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno."

"Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.”

"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade..."

“O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração.”

“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.”

“Simplicidade é isso: Quando o coração busca uma coisa só.”

 “Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.”

“Uma pessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela...”

15/9/1933: Rubem Alves: psicanalista, educador, teólogo e escritor, seus livros e artigos abordam temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis.

sábado, 8 de setembro de 2012


 A mãe Rússia deve ser mesmo uma santa... Fez tanto bem à metade que pilhou da Europa, que teve de construir um muro e atirar nas pessoas desesperadas que tentavam fugir daquelas nações miseráveis. Vai ver elas eram masoquistas, fugindo do paraíso para vivenciar por pura loucura os horrores da democracia ocidental. Mais ou menos como naquela ilha da fantasia latino-americana, onde brigar na rua por causa de sabonetes e abrir mão de usar papel higiênico é o mais novo gesto abnegado de apoio à Revolução...
O comunismo é uma doutrina falsa, genocida, monstruosa, burra, fanática, e unânime no Brasil. Tanto quanto seu primo-irmão, o nacional-socialismo, ou, a julgar pelo número de imolados, provavelmente pior. Poucos são os que conseguem permanecer livres desse pensamento único numa falsa república bolivaribanana, pobre, à margem da cultura, como esta. A democracia nunca foi popular, e nunca existiu de fato por estas quintas em que, em se plantando, tudo quanto é dogma totalitário importado viceja, de preferência os que já vêm bem prontinhos e acabados, exigindo pouquíssimo ou nenhum raciocínio para aceitar. É claro que aqui não se sabe absolutamente nada sobre os crimes horrendos da URSS. Vai ver a KGB foi só uma historinha inventada pela CIA, uma teoria da conspiração. Ou vai ver que ela já não existe mais e não está no poder na URSS, que já está demonstrando certo fastio de se fingir de morta.
Feliz Foro de S. Paulo para todos os sábios defensores do totalitarismo comuno-fascista que não enxergam na democracia nada além de um instrumento da "dona zelite". Ops, falando em elite, será que na União Soviética Ibero-Americana haverá vagas na nova elite benfazeja para todos os amigos? Os gulags, especialmente hospitaleiros com os "socialmente conscientes" correligionários, que Lenin carinhosamente apelidou de "idiotas úteis", costuma ser um destino bem mais provável para os que acordam tarde demais do sonho utópico. Mas deixa pra lá, eu não vou e não preciso me agastar tentando convencer ninguém. A Revolução (que no Brasil, também atende pelo nome de Mensalão) é uma ideia tão ruim que, depois de causar suas inevitáveis calamidades de praxe, costuma morrer por si. Claro que, exposta à luz, o processo é muito mais rápido. Mas, mais cedo ou mais tarde, quase todos os sobreviventes acabam percebendo.

Carlos l W Jorge

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Julio Cortázar a 98 años de su nacimiento: Genialidad totalizante



El espíritu libre de Julio Cortázar derivó su obra en las diferentes direcciones de los géneros narrativos. El reconocido crítico Ricardo González Vigil nos da un panorama de su legado

  
Ricardo González Vigil – Miembro de la Academia Peruana de la Lengua – El Comercio

Julio Cortázar (1914-1984) pertenece a la generación de escritores argentinos que se dieron a conocer a fines de los años 30 y durante los 40. Una hornada con grandes narradores: Ernesto Sábato (1911-2011), Manuel Mujica Láinez (1910-1984), Adolfo Bioy Casares (1914-1999) y Silvina Ocampo (1906-1993), señaladamente.

LEGADO ARGENTINO
Sábato se nutrió de la problematización existencial de Roberto Arlt y Eduardo Mallea, así como de la crítica histórico-social enarbolada por el grupo Boedo; y Bioy Casares y Ocampo adoptaron el refinamiento imaginativo y el horizonte cosmopolita del grupo Florida, bajo la órbita de Jorge Luis Borges y la revista “Sur”. En cambio, Cortázar, con mayor complejidad y apertura que Mujica Láinez (se inclina más por Borges-Florisa que por Arlt-Boedo), acogió todo el legado narrativo argentino: el esmero estilístico y el ingenio fantástico de Borges, la angustia existencial y la valoración de la locura y el lumpen-“clochard” de Arlt, junto con la orientación marxista de Boedo, sin desdeñar el radicalismo experimental y el juego metaliterario (la literatura que habla de literatura) de dos autores marginales: Macedonio Fernández y Leopoldo Marechal en su magistral novela “Adán Buenosayres” (1948).

MODERNIDAD PLURAL
Agréguese que, con más decisión que todos ellos, asumió el aliento innovador de la modernidad literaria, desde sus fuentes románticas (recordemos que tradujo a Poe y estudió a John Keats) y simbolistas, hasta las propuestas vanguardistas, en particular el surrealismo. De otro lado, coincidiendo con la modernidad plural del mexicano Octavio Paz, bebió de la espiritualidad oriental: el budismo zen, el hinduismo y el taoísmo.

TODOS LOS GÉNEROS
Su espíritu abierto lo impulsó a cultivar todos los géneros literarios: el cuento, se coronó como uno de los dos más grandes cuentistas del idioma español, en compañía de Borges; la novela, plasmó uno de los climas de la novelística latinoamericana: “Rayuela”); la poesía, digna de relieve; el ensayo, brillante y esclarecedor; y el texto dramático. Más aún, se complació en dinamitar los límites entre los géneros establecidos: las misceláneas “La vuelta al día en ochenta mundos” y “Último round”; los textos brevísimos, inclasificables, de “Historias de cronopios y de famas”; la antinovela sin texto fijo: “Rayuela”; los efectos letristas y concretistas de sus poemas emancipados del verso; etc.

PROTAGONISTA DEL ‘BOOM’
Ese espíritu abierto, sumado a su rostro perpetuamente juvenil y su entusiasmo por la Revolución Cubana (que no sedujo a Sábato, Mujica Láinez, Bioy Casares ni Ocampo) le permitieron conformar el póquer de ases del ‘boom’ de la novela hispanoamericana (1960-1972) con escritores de la generación siguiente: Mario Vargas Llosa (22 años menor que él), Carlos Fuentes (1928-2012) y Gabriel García Márquez (1927).

Con una fórmula condensó la postura del ‘boom’ que apoyaba la Revolución Cubana sin tornar a la literatura un instrumento proselitista: la meta era ser el ‘Che Guevara de la literatura’. Es decir: si el guerrillero se propuso modificar la infraestructura económica y política (el ‘ser social’, en términos marxistas); le correspondía a los creadores literarios revolucionar el lenguaje y la imaginación (la ‘conciencia social’), escribiendo en total libertad y seguir las necesidades expresivas en gran parte inconscientes (lecciones del surrealismo y el compromiso según Sartre).

“RAYUELA”: NOVELA TOTAL
El designio del ‘boom’ de abarcar todos los niveles de la realidad y explorar todos los recursos del lenguaje tejiendo una “novela total” (así la llama Vargas Llosa) alcanzó una de sus realizaciones supremas en “Rayuela” en 1963.

Posee una dimensión realista: el lado de allá (París) y el lado de acá (Buenos Aires) plantean la tensión entre lo europeo-occidental y lo criollo-indoamericano. Alcanzar el centro del mandala o conquistar la casilla superior (cielo) del juego de la rayuela (en el Perú se lo denomina mundo) equivale al tao que sintetiza el yin y el yang, el norte y el sur, lo europeo-occidental y lo americano.

Sin embargo, evita el realismo consabido, propicia lo insólito, lo mágico y lo fantástico. En el terreno verbal, la Maga inventa un lenguaje lúdico de sonoridad mágica e infantil: el glíglico. Otro componente es lo que, en la novela “Los premios” (1960), Cortázar denominó “figuras”: nexos entre los personajes que los revela como desdoblamientos o seres complementarios; así, Horacio es a Traveler, como la Maga a Talita. Nótese la ambigüedad fantástica: Horacio se vuelve un “clochard” en París, pero también se suicida en Buenos Aires, aunque en otro capítulo logra Talita impedir el suicidio, haciéndonos recordar a Borges con sus secuencias que se bifurcan.

Hay un nivel más: el metaliterario, desplegado en varios capítulos, sobre todo los “Capítulos Prescindibles”. Las ideas sobre la antinovela, la novela-mandala, el lector-macho, etc., concuerdan con el deseo de ser el ‘Che Guevara de la literatura’, a tal punto que no hay un texto único, sino que recomienda leer el libro saltando (como en el juego de la rayuela) de un capítulo a otro, invitando a explorar todas las combinaciones posibles.


Os Sonetos de Walter Benjamin




68

Como o coral alastra a sua morte
a arder em árvore púrpura no seio
do mar com a temente alma no meio
dos braços rubros presa do mais forte

Com beijo amargo de ruína veio
a ameaça Ela faz voto de sorte
que acre tormento a tal mando suporte
e é-lhe paga final final receio

Medida no festim desesperado
na turvação lembra a doçura amena
bebe o Lethes do tempo perturbado

qual dando eternidade em mão serena
dota a alma e a herança distribui
O ser simples de quem recusa flui.


 Walter Benjamin

Os Sonetos de Walter Benjamin. Tradução de Vasco Graça Moura. Campo das Letras, 1999, p.153


‎*O homem é um organismo prático, vivendo com uma multiplicidade de organismos similares num campo de escassez. Mas esta escassez é uma força negativa que define cada homem e cada multiplicidade parcial como realidades humanas e inumanas ao mesmo tempo.*

(Razão e Violênca - ''O indivíduo numa sociedade de classes'')


‎"Para a maioria de nós e durante a maior parte do tempo, o mundo da experiência cotidiana surge como sombrio e monótono. Mas há um pequeno número de pessoas a quem acontece com frequência ( e um número bastante maior a quem acontece uma vez ou outra) que alguma coisa do brilho característico da experiência visionária, por assim dizer, se derrame sobre o seu ver habitual transfigurando o universo cotidiano''

(Aldous Huxley - O Céu e o Inferno)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


. ''L'uomo é gregario, e ricerca più o meno consapevolmente la vicinanza non già del suo prossimo generico, ma solo di chi condivide le sue convinzioni profonde [o la sua mancanza di tali convinzioni.]''

Primo Levi

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

La noche



Eduardo Galeano – El Libro de los Abrazos

1

No consigo dormir. Tengo una mujer atravesada entre los párpados. Si pudiera, le diría que se vaya; pero tengo una mujer atravesada en la garganta.

2

Arránqueme, señora, las ropas y las dudas. Desnúdeme, desdúdeme.

3

Yo me duermo a la orilla de una mujer: yo me duermo a la orilla de un abismo.

4

Me desprendo del abrazo, salgo a la calle.
En el cielo, ya clareando, se dibuja, finita, la luna.
La luna tiene dos noches de edad.
Yo, una.

Sexo, conflito e tensão



05 de agosto de 2012

LEE SIEGEL – O Estado de S.Paulo

NOVA JERSEY – Cinquenta Tons de Cinza é um livro a respeito do relacionamento sadomasoquista entre uma universitária inocente e um jovem e lindo bilionário, que a convida para partilhar os prazeres do sexo na sua “sala vermelha da dor”. A obra causou sensação nos Estados Unidos, vendendo centenas de milhares de exemplares no formato eletrônico e no impresso. Praticamente todos aqueles que ganham a vida escrevendo já apresentaram sua opinião do livro – na verdade, todas as escritoras o fizeram. Os escritores parecem querer distância dele.

Tentei ler o livro e tive de abandoná-lo quando cheguei à parte em que o protagonista, Christian Grey, faz sexo violento com a jovem e virginal Anastasia. Como em toda a pornografia, o trecho mais parecia uma lista de instruções para a correta organização de uma mesa de cartas. Quanto mais explícitos são os textos sobre o sexo, mais constrangedora é a sua leitura. O trecho mais erótico de toda a literatura é do grande romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, escrito no século 19, quando Emma Bovary viaja de carruagem com seu amante, Rodolphe. Flaubert jamais descreve o encontro sexual, o que o torna muito mais tórrido.

A esta altura, dúzias de comentaristas destacaram as semelhanças entre Cinquenta Tons de Cinza – escrito por uma ex-executiva da televisão britânica chamada E.L. James – e romances góticos como Jane Eyre, bem como a popular série de romances vampirescos Crepúsculo. Mas ninguém explorou a dinâmica entre o bilionário e sua presa. Ninguém indagou se Anastasia permitiria que o caixa de uma livraria ou um mecânico de carros a espancasse, machucasse e torturasse sexualmente. Em vez de fugir de um homem claramente perturbado e insano, ela fica ao lado dele, tentando transformá-lo num amante terno e cheio de consideração.

Assim, nestes EUA que têm mais bilionários do que qualquer outro país do mundo, nestes EUA onde a distância entre ricos e pobres aumenta a um ritmo alarmante, nestes EUA onde uma oligarquia é cada vez mais a dona do país – neste lugar que se torna cada vez mais estranho para aqueles que, como nós, o amam, a obra de ficção mais popular no mercado é, literalmente, sobre uma mulher que submete sua dignidade e a própria alma ao fato bruto da riqueza e do poder.

Os rituais do sadomasoquismo me parecem se encaixar perfeitamente numa cultura que está se tornando dominada quase que exclusivamente pelos valores de mercado. Não estou julgando ninguém – aquilo que é de consentimento mútuo entre duas pessoas no reino do prazer não deve ser da conta de nenhuma outra pessoa, e Deus sabe que todos precisamos do prazer para sobreviver. Quero apenas destacar, com aquilo que espero ser uma neutralidade antropológica, que o sexo sadomasoquista é o sexo mais quantificável que se pode ter. Assim como ocorre numa permuta altamente estruturada, não há surpresas. Todos os componentes são apresentados previamente. A fórmula subjacente é clara: Dor = Prazer. Prazer é divisível pela dor. Dor multiplicada por duas chicotadas, uma torção e um pisão = prazer.

Se o sexo é, entre outras coisas, uma incalculável sublimação do estresse, do conflito e da tensão na forma do prazer, então – na minha concepção – o sexo sadomasoquista é uma dessublimação do prazer sexual diretamente de volta ao reino do estresse, do conflito e da tensão. Se o sexo é, ao lado da arte e do brincar, o grande domínio da liberdade humana no qual podemos nos refugiar do estresse, do conflito e da tensão do mercado, então o sexo sadomasoquista é um retorno ao mercado. Somente os muito ricos, que talvez anseiem pelo conflito diário como apenas outra diversão, podem vivenciar o ritual sadomasoquista como uma fuga. Para todos os demais, este sexo traz apenas aquilo que temos no nosso dia a dia.

E por baixo das permutas sadomasoquistas entre Christian Grey e Anastasia está, é claro, a permuta mais antiga de todas. Anastasia oferece sexo a Grey, e ele concede a ela os benefícios do seu poder. Nos velhos tempos, isso significaria joias, roupas e, quem sabe, um apartamento, e as pessoas teriam lido isso e enrolado a língua em sinal de reprovação, compartilhando entre si também uma piscadela, já que, num certo nível, é assim que o mundo funciona, e isso consiste num elemento essencial da tríade amor, casamento e filhos. Mas, além de comprar para a jovem um bracelete de platina e diamantes para cobrir as marcas no pulso dela, Grey não dá a Anastasia nada que tenha valor material. Em vez disso, ele a espanca e machuca e simula com ela violações anais. E os leitores estão comprando o livro aos montes.


Vidal de A a Z


Memória

Um genial ensaísta, mas franco demais na ficção

Associated Press

Gore Vidal, emfoto de 1977, mostra seu romance “Myron”, lançado três anos antes

RESUMO

Ele amava os Kennedy, detestava Truman Capote e dizia já ter dormido com mil homens e mulheres antes dos 25. De A a Z, um percurso pelo pensamento do intelectual que agitou os fatos e a ficção do século 20 e que, morto no dia 1º, deixou uma irônica imagem não só dos EUA, mas também da alta e da baixa cultura.

STUART JEFFRIES e STEPHEN MOSS – FOLHA SP

TRADUÇÃO CLARA ALLAIN

A DE AMÉRICA Gore Vidal descreveu sua pátria como os Estados Unidos da Amnésia. Denunciou o que via como traição aos princípios fundadores da nação. “Os EUA foram fundados pelas pessoas mais inteligentes do país, e desde então nunca mais as vimos.” Tinha pouco apreço pelo cargo de presidente, pelo menos quando não era ocupado por um Kennedy. “Qualquer americano que se disponha a concorrer à Presidência deveria automaticamente ser desqualificado como candidato.”

B DE BUSH Não é surpreendente que detestasse George W. Bush. Vidal disse que os ataques do 11 de Setembro ocorreram porque o governo foi “incompetente”, e o próprio Bush, “inativo e inoportuno”.

A revista “Vanity Fair” se recusou a publicar um ensaio dele sobre os ataques. Em outro, no jornal britânico “The Independent”, comparou o 11/9 a Pearl Harbour, argumentando que os presidentes Roosevelt e Bush sabiam dos ataques de antemão e tiraram proveito deles.

C DE CAPOTE Nem todos os alvos de Vidal eram políticos. Ele teve uma longa escaramuça com o escritor Truman Capote. É possível que Capote tenha começado, ao dizer que Vidal tinha sido expulso da Casa Branca por brigar, bêbado, com a mãe de Jackie Kennedy.

Vidal processou Capote por calúnia e eles trocaram insultos no tribunal. Vidal sugeriu que Capote tinha “elevado a mentira à condição de arte -uma arte menor”. Capote retrucou: “Sempre fico triste quando penso em Gore. Triste por ele respirar todo dia”. Os dois fecharam acordo extrajudicial, mas a desavença continuou. Depois de Capote morrer, em 1984, Vidal disse que sua carreira tinha sido “uma boa iniciativa profissional”.

D DE DEMOCRACIA Vidal era cético em relação à democracia em geral (”Parece que um país democrático é um lugar onde são realizadas muitas eleições, a um custo alto, sem discutir questões substantivas e com candidatos intercambiáveis”) e a sua encarnação americana em especial (”De quatro em quatro anos, a metade ingênua [da população] que vota é incentivada a acreditar que, se pudermos eleger alguém simpático, tudo ficará bem. Mas não ficará.”).

E DE ENSAIO Vidal foi melhor ensaísta do que romancista. Martin Amis, que tem pouca paciência com o romancista, reconhece a glória de seus ensaios: “[Neles, Vidal] é erudito, divertido e perspicaz. Até os pontos cegos são esclarecedores”. O dramaturgo David Hare disse que Vidal “não tinha nem sequer um osso ficcional”, mas era um “ensaísta genial”.

Vidal era franco demais, excessivamente apegado às suas opiniões para ser um grande ficcionista, que precisa representar diversos pontos de vista. A coletânea de 1993, “United States: Essays 1952-1992″ é um compêndio majestoso que mapeia não só sua vida bombástica, mas a cultura e política do país que ele amava e odiava.

F DE FELLINI Vidal adorava fazer pontas no cinema e na TV. Certa vez, apareceu como simulacro de si mesmo em “Os Simpsons”, ao lado de Tom Wolfe, Michael Chabon, John Updike e outros; também representou a si mesmo em “Family Guy” e viveu um senador no filme “Bob Roberts”, de Tim Robbins. Atuou na ficção científica “Gattaca”, de 1997. Sua aparição final no cinema foi como apresentador de um “talk show” em “Shrink”, de 2009. A ponta mais importante talvez tenha sido em 1972, em “Roma”, do amigo Federico Fellini.

G DE GORE “Sou como aparento ser”, ele disse certa vez. “Por baixo de minha fachada fria, se você quebrar o gelo, vai encontrar água fria.” O romancista e amigo Italo Calvino insistia em que Vidal não tinha inconsciente. Vidal satirizou a monstruosidade de sua própria vaidade. “No íntimo, sou um propagandista, um tremendo de um turrão, certo de que não existe problema que não possa ser resolvido se as pessoas fizerem o que aconselho”, disse ele ao jornal “The Guardian” em 2005.

H DE HOMOSSEXUALISMO “Não há homossexual ou heterossexual”, disse. “Há atos homo ou hetero. A maioria das pessoas é uma mistura de impulsos, mesmo que não seja uma mistura de práticas.” Em suas memórias, “Palimpsesto”, afirmou que aos 25 já tinha tido mais de mil encontros sexuais com homens e mulheres, tendendo mais ao que chamava de “sexo com o mesmo sexo”.

I DE ITÁLIA Vidal viveu por anos retirado no alto de uma montanha em Ravello, na costa amalfitana, até que sua saúde o impediu de caminhar pelas colinas. Em 2003, mudou-se para Hollywood Hills, em Los Angeles.

J DE JACK KEROUAC Vidal dizia ter tido um caso com o autor beat. Em “Palimpsesto”, recorda ter descoberto, “para meu espanto”, que Kerouac era circuncidado. Foi Capote, não Vidal, quem cunhou a frase mais ferina sobre a obra de Kerouac: “Isso não é escrever, é datilografar”.

K DE KENNEDY Vidal não se cansava de falar dos amigos famosos. Seus dois livros de memórias -”Palimpsesto” e “Point to Point Navigation”, de 2006- descrevem a amizade com a primeira-dama Eleanor Roosevelt, a princesa Margaret e o maestro Leonard Bernstein. Era amigo de John Kennedy e parente de Jackie. “É sempre delicado”, escreveu, “quando um amigo ou conhecido vira presidente.”

L DE LOVE “O amor não é o meu negócio”, insistia. Mas viveu por 53 anos com o publicitário Howard Austen. A chave da relação, disse várias vezes, foi nunca dormirem juntos. Austen foi sepultado no cemitério de Rockcreek, em Washington, em 2003. Vidal disse que queria suas cinzas perto do companheiro. “Dividimos um lote no cemitério, e estarei lá”, disse Vidal. “Ansioso por revê-lo.”

M DE MAILER Vidal e o escritor Norman Mailer tiveram uma rixa literária. Mailer deu-lhe um soco numa festa, levando Vidal a retorquir: “Mais uma vez faltam palavras a Norman”. Mailer também teria dado uma cabeçada nele antes de um programa de TV, depois de Vidal o ter comparado ao infame assassino Charles Manson.

N DE NARRATIVA Vidal escreveu 25 romances. O terceiro, “A Cidade e o Pilar”, de 1948, história de um jovem belo e atlético que sai do armário, foi colocado numa lista negra, Vidal alegaria mais tarde. “Vendi 1 milhão de exemplares e isso trouxe angústia ao ‘New York Times’.” O ostracismo do livro tornou tão difícil ter suas obras resenhadas que assumiu o pseudônimo Edgar Box numa série de romances policiais.

Deixou os romances de lado por um tempo. Em 1956, a MGM o contratou. Ele ajudou a reescrever o roteiro de “Ben Hur”, embora não figure nos créditos. Também escreveu a adaptação da peça “De Repente, no Último Verão”, do amigo Tennessee Williams. Nos anos 60, voltou a escrever ficção, com best-sellers: “Julian” (1964), sobre o imperador romano que quis restaurar o paganismo; “Washington, DC” (1967), a primeira de suas crônicas ficcionais da história americana, e “Myra Breckinridge” (1968).

O DE OKLAHOMA Vidal criou um elo incomum com o autor do ataque em Oklahoma City, Timothy McVeigh. Depois do artigo de 1998 na “Vanity Fair” em que afirma que a Carta dos Direitos dos EUA fora rasgada, os dois trocaram cartas e a amizade inspirou a peça “Terre Haute”, de Edmund White. “Ele é inteligente. Não é louco”, disse Vidal sobre McVeigh. Em “Perpetual War for Perpetual Peace”, Vidal diz que tanto os atentados de Oklahoma como os do 11 de Setembro foram provocados por “agressões insensatas do nosso governo a outras sociedades”.

P DE POLÍTICA Vidal candidatou-se a cargos eletivos duas vezes: ao Congresso Americano, em 1960, pelo Estado de Nova York, e ao Senado, na Califórnia, em 1982. Perdeu ambas, mas em 1960 obteve mais votos que qualquer democrata no distrito em 50 anos.

Q DE QUEER [VEADO] Nos anos 1960, o colunista conservador William F. Buckley chamou Vidal de “veado” na TV. Buckley comparava os manifestantes contra a Guerra do Vietnã a nazistas. Vidal retrucou: “O único pró ou criptonazista que me vem à mente é você”. “Ouça aqui, seu veado”, disse Buckley. “Pare de me chamar de criptonazista ou lhe dou um soco. Estive na infantaria na última guerra.” “Não esteve”, Vidal retorquiu. “Estive, sim.” “Não esteve.”

R DE RELIGIÃO “O grande e indecente mal que está no cerne de nossa cultura é o monoteísmo. Três religiões anti-humanas se desenvolveram a partir de um texto bárbaro da idade do bronze conhecido como o Velho Testamento: o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de um deus celeste. São patriarcais, e é essa a razão do ódio às mulheres ao longo de 2.000 anos nos países que sofrem influência do deus celeste e de seus representantes terrenos do sexo masculino. [...] Em última análise, o totalitarismo é o único tipo de política que pode atender os objetivos do deus celeste.”

S DE SUCESSO “Cada vez que um amigo faz sucesso, morro um pouquinho.” Em outra ocasião, Vidal disse: “Não basta ter sucesso. É preciso que outros fracassem.”

T DE TV Vidal dizia que a TV não é para ser vista, mas para se aparecer nela. “Nunca perco uma oportunidade de fazer sexo ou de aparecer na TV.”

U DE UPBRINGING [EDUCAÇÃO] Vidal recebeu o nome Eugene Luther Gore Vidal por causa do pai, o tenente Eugene Luther Vidal, mas aos 14 livrou-se dos primeiros nomes. Antes de fazer carreira no Exército, seu pai foi medalha de prata na Olimpíada de 1920. “Nós nos conhecemos durante 43 anos, não concordávamos em nada, mas nunca brigamos”, disse o filho. “Só homens são capazes disso. As mulheres não.” Quando sua mãe, Nina Gore, casou-se de novo, Vidal dividiu o padrasto com Jacqueline Kennedy Onassis. Ele detestava a mãe (”Bêbados não são grande coisa como companhia”).

V DE VIDAL Gore Vidal não tinha parentesco com o cabeleireiro Vidal Sassoon. Mas o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore é seu primo distante.

W DE “WATERSHIP DOWN” “Gore Vidal está sendo entrevistado no ‘Start the Week’ ao lado de Richard Adams (autor de ‘Watership Down’). Perguntam a Adams o que ele achou do novo romance de Vidal sobre Lincoln. ‘Achei chamativo, mas sem valor real.’ ‘É mesmo?’ diz Gore. ‘Muito bem, um Ano-Novo feliz, chamativo e sem valor real para você.’ É assim que se faz.” (De “Writing Home”, de Alan Bennett.)

X DE X-RATED Vidal recebeu críticas negativas por dois filmes proibidos para menores aos quais esteve ligado. “Homem e Mulher até Certo Ponto”, de Michael Sarne, baseado em seu romance “Myra”, foi classificado como um dos piores filmes de todos os tempos. Mais tarde, Vidal moveu ação judicial, sem sucesso, para ter seu nome retirado dos créditos de “Calígula” (1979) como roteirista, depois de o produtor ter acrescentado cenas pornográficas.

Y DE YELLOW “In a Yellow Wood” (1947), seu segundo romance, foi inspirado no primeiro verso do poema “The Road Not Taken”, de Robert Frost (”Two roads diverged in a yellow wood…”). É sobre um corretor de Wall Street que vive assombrado por recordações de sua amante italiana durante a guerra. Mais tarde, Vidal diria que o livro era tão ruim que não suportava relê-lo.

Z DE ZOROASTRO O protagonista do romance “Criação” (1981) é Cyrus Spitama, diplomata persa aquemênida do século 5 a.C. e neto de Zoroastro. Ele viaja pelo mundo comparando crenças políticas e religiosas. É um livro grandioso, ambicioso e pouco lido. Faz lembrar o episódio de “Os Simpsons” em que Lisa segura um livro intitulado “Tome”, de Gore Vidal. “Esses são meus únicos amigos”, ela se queixa. “Nerds adultos, como Gore Vidal. E ele já beijou mais garotos do que eu jamais vou beijar.”

Publicado no jornal “The Guardian”.

Um hemisfério numa cabeleira



«Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água duma nascente, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar.
Se tu pudesses saber tudo o que eu vejo! tudo o que eu sinto! tudo o que eu ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música.
Os teus cabelos contêm um sonho inteiro, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e da pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam a água.
No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas praias acetinadas da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco.
Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações.»

Charles Baudelaire. O Spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa. Tradução de António Pinheiro Guimarães. Relógio D’Água, Lisboa, 1991.,p.49/50


Alívio



Enfim, cara, vieste – e bem. Com
ânsia te esperava – e muito. Que
saibas: em minha alma ascendeste
um fogo que a devora.

Safo

sábado, 5 de maio de 2012

Cais

"Para quem quer se soltar invento o cais


Invento mais que a solidão me dá

Invento lua nova a clarear

Invento o amor e sei a dor de me lançar

Eu queria ser feliz

... Invento o mar

Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir eu quero mais

Tenho o caminho do que sempre quis

E um saveiro pronto pra partir

Invento o cais

E sei a vez de me lançar" -

Milton Nascimento, Ronaldo Bastos



domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fotografia

O mandamento de Capa


Por que morrem tantos fotógrafos de guerra?

RESUMO

Robert Capa, morto em 1954, no Vietnã, fixou uma regra para o fotojornalismo de guerra: a qualidade das fotos estaria ligada à proximidade do fotógrafo com seu objeto. Vigente até hoje, embora dispensável em tempos de fotografia digital, o mandamento ainda é responsável pelo alto índice de mortes na profissão.



A morte do cinegrafista francês Gilles Jacquier, 43, na cidade de Homs, na Síria, no dia 11 de janeiro, vem se somar a uma longa lista de repórteres de imagens mortos em áreas de conflito na história recente do jornalismo.



Antes dele, a Primavera Árabe já tinha tirado de um só golpe a vida de dois importantes fotógrafos de guerra da atualidade, o inglês Tim Hetherington e o americano Chris Hondros. Os dois morreram na Líbia, em abril de 2011, atingidos por um morteiro disparado pelo Exército do ditador Muammar Gaddafi em Misrata, cidade controlada pelos rebeldes (que viriam a vencer a guerra civil no país). O petardo ainda feriu outros dois fotógrafos.



Hetherington vinha de anos de produção consagradora cobrindo a ocupação americana do Afeganistão. Ali, ele fez a foto que ganhou o Prêmio World Press (o “Oscar do fotojornalismo”) de 2007 e realizou, com câmera de última geração, o longa “Restrepo”, indicado ao Oscar de documentário e escolhido como melhor filme do festival Sundance em 2010.



Em entrevista à então correspondente da Folha em Washington, Andrea Murta, no lançamento do filme, Hetherington disse que “é muito fácil ficar viciado” em guerras. A frase lembra a de Duck, personagem do filme “A Caçada” (2007), ficção baseada em fatos reais na Bósnia: “Estar tão perto da morte e sentir-se assim tão vivo é viciante. Quem disser o contrário estará mentindo”.



A morte de Hetherington teve várias coincidências com a do maior fotógrafo de guerra de todos os tempos, Robert Capa (1913-54), no Vietnã. Ambos morreram aos 40, em conflitos assimétricos, em países do terceiro mundo, já consagrados e experimentando uma ampliação da carreira para o cinema.



Guerras matam muitos jornalistas. Mas, entre eles, fotógrafos e cinegrafistas são as principais vítimas. E a proporção cresceu nos últimos tempos. Relatório da ONG internacional Comitê para a Proteção de Jornalistas aponta que 40% dos jornalistas mortos em ação em 2011 eram fotógrafos ou cinegrafistas, o dobro da média histórica apurada desde 1992.



Ao produzir suas imagens, muitas vezes os repórteres fotográficos se expõem a riscos. Até mesmo jornalistas de texto ou de voz estão convictos de que os de imagem são os mais valentes, como escreve David Halberstam em “Requiem”, homenagem aos 135 fotógrafos que perderam a vida na mesma guerra do Vietnã que matou Capa: “Nós, jornalistas de texto, sempre soubemos que os fotógrafos eram realmente os corajosos. Só existe uma forma de eles produzirem intimidade com a cena: serem testemunhas oculares”.



Há várias razões para essa exposição ao risco. O vício mencionado por Hetherington pode ser uma delas, mas certamente tem grande importância a ideia expressa na frase de Capa: “Se suas fotos não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente”, como consta no livro “Ligeiramente Fora de Foco” [trad. José Rubens Siqueira, Cosac Naify, 296 págs., R$ 69], que narra sua participação na Segunda Guerra Mundial.



Desde Capa, a proximidade do repórter fotográfico em relação ao objeto passou a ser uma lei da fotografia, um regimento profissional, que prescreve opções subjetivas, estéticas, as quais se confundem com imposições técnicas e objetivas. O mandamento de Capa constituiu uma gramática da fotografia de guerra (o sujeito deve estar junto de seu objeto), mas impõe um efeito colateral: a morte frequente.



TELEOBJETIVAS



Ao aplicar sua concepção teórica, Capa recusava as teleobjetivas, preferindo as lentes de 50 mm, que os fotógrafos chamam de “lente normal” por ser a que melhor reproduz o ângulo de visão do homem.



A 50 mm capta a imagem de objetos que estão em um campo de 45º à frente, muito semelhante ao campo de visão do olho humano. Mais longas, as teles só deixam entrar a imagem de objetos que estão num pequeno campo de visão. Por isso eles parecem tão ampliados: porque uma pequena fração da imagem ocupará toda a foto.



Uma tele de 600 mm tem um campo visual de apenas 4°. Esse “afinamento” provoca outro efeito: a perspectiva se desfaz, some a percepção das diferentes distâncias dos objetos, tudo o que aparece na foto parece estar à mesma distância. A tele “chapa” o fundo, como acontece com a visão de um homem que vê com um só olho.



Ao dizer que uma foto é boa quando feita de perto, portanto, Capa elabora um conceito estético mas também técnico, a partir da geometria, em busca do que considera a perspectiva “verdadeira”.



ÉTICA



Sua ideia tem também uma decorrência ética: se a foto feita de longe distorce a posição dos elementos, ela fere o princípio de fidelidade do jornalismo.



Um fotógrafo, no entanto, usou a teleobjetiva para produzir uma grande foto cujo impacto vem exatamente da redução da profundidade. O sul-africano Kevin Carter foi colhido por uma polêmica em 1994, quando conquistava um dos maiores prêmios do jornalismo internacional, o Pulitzer.



Carter era parte de uma turma de jovens e audazes fotógrafos brancos, nascidos na África do Sul do apartheid, que se destacara na cobertura dos conflitos que quase resultaram em guerra civil na transição para a democracia multirracial criada sob o governo de Nelson Mandela, no início dos anos 1990.



Kevin e seus amigos estavam sempre a postos para testemunhar casos de violência, conforme conta o “Clube do Bangue-Bangue” [trad. Manoel Paulo Ferreira, Companhia das Letras, 344 págs., esgotado], escrito por dois deles, Greg Marinovich e João Silva.



Carter foi para o Sudão em março de 1993, para documentar a guerra civil entre tribos cristãs e o governo islâmico. Lá, fez uma foto muito impressionante num acampamento de refugiados: um menino subnutrido à beira da exaustão é observado por um abutre que parece esperar sua morte.



A foto é chocante. Publicada pelo “New York Times”, correu o mundo. No ano seguinte, ganhou o Pulitzer de fotografia, o que deflagrou uma intensa polêmica: o que ele fez para salvar a criança? Como fotógrafo, buscou a foto chocante em vez de espantar o bicho?



A polêmica, porém, é toda imotivada: a foto sugere algo irreal. Há uma ilusão de óptica: a imagem foi feita com uma tele de 180 mm, que distorce a perspectiva. O abutre parece estar mais perto, o que dá a falsa impressão de espreita.



Carter caiu em depressão meses depois de receber o prêmio e veio a se matar no mesmo ano. Sua foto é um exemplo de como a aura de pecado se abate sobre quem não segue o mandamento de Capa.



NAVALHA



A administração da distância é o fio da navalha sobre o qual se move o fotógrafo: se fica muito longe, não consegue uma cobertura “quente”; se chega muito perto, corre perigo de morte. Ao mesmo tempo, a proximidade expõe ao risco de produzir um retrato parcial do conflito.



O senso comum fixou a ideia de que o risco é inerente à fotografia de guerra, uma vez que ela só poderia se realizar a pequena distância do fato, o que muitas vezes implica risco de morte ou parcialidade. A tensão entre proximidade, risco e adesismo se cristalizou no cinema em filmes que têm fotógrafos como personagens, como “Sob Fogo Cerrado” (1983), de Roger Spottiswoode, “Salvador, O Martírio de um Povo” (1986), de Oliver Stone, e “Antes da Chuva” (Milcho Manchevski, 1994).



Mas uma análise dos equipamentos e da técnica fotográfica revela que a necessidade de proximidade em relação à fonte do risco de morte é falsa. O exemplo mais conhecido é a cobertura de eventos esportivos. A fotografia esportiva mostra que hoje já é possível retratar as cenas com precisão sem chegar tão perto.

LEÃO SERVA
Fonte – Folha de São Paulo

EVOLUÇÃO

Depois de anos de uma evolução estética que resultou em fotos absolutamente fechadas (em vez de um gol, o fotojornalismo dos anos 80-90 tentava mostrar detalhes como a expressão facial do autor do gol ao chutar), a foto esportiva vem recuperando os planos abertos, que permitem ver as jogadas e seus contextos.



Paralelamente, a evolução dos equipamentos, com a fotografia digital superando a resolução dos filmes químicos, torna possível, por exemplo, captar a imagem de um campo de futebol inteiro e recortar da imagem a cena específica que interessa publicar.



Essa possibilidade técnica, no entanto, tem sido refutada sob o argumento de que pode significar falseamento. É uma decisão coerente com o mandamento de Capa, mas que não se justifica à luz da técnica em si, e possivelmente nem da ética, caso se compare o ganho, com a redução de mortos e feridos, com os riscos de eventual adulteração da imagem (até porque os registros que a câmera eletrônica produz sobre seus fotogramas são detalhados como um RG e podem ser usados para conhecer as alterações feitas no original).



Da mesma forma que nos estádios olímpicos, os recursos técnicos já poderiam dar aos repórteres fotográficos a chance de documentar cenas de conflito sem necessariamente se aproximar tanto de seu objeto.



Então, por que morrem tantos fotógrafos de guerra? Morrem por uma ideologia.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Passional

Seu olhar me desconcerta
Penetrante Inquietante
O prazer que em mim desperta
Inquietante Deslumbrante
Ter você sob as cobertas
Deslumbrante Fascinante

O fascínio do teu corpo
Me perco em suas curvas
Em cada esquina deste corpo

Você é minha perdição
Ao mesmo tempo é a razão
Da escrita com paixão

Observo contemplando
Esperando
Sua ação
Faça comigo o que desejar
Sei que vou gostar

Não quer escrever?
Não. Quero apenas você
Linda envolvente
Eterna adolescente
De beleza incandescente

Sua sensualidade latejando
Seus olhos convidam
Todo meu corpo desejando
Você me acariciando

Acabo por escrever
sobre a intensidade
De te querer

Inteligência provocante
A libido reclama
sufocante
Presença fascinante
Em minha cama
Ou banheiro, cozinha, chão
Só importa nossa paixão

 Liz Christine

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DOS TRINCOS

Ando temeroso pelas ruas da cidade

Mesmo quando o sol nos esbofeteia

Ou à noite, desviando nas calçadas

Da merda nelas largada – suspensa

A respiração, enquanto pessoas aos

Grupos falam alto e seus gritos

Chegam às janelas onde me refugio.

E nos telhados gatos gemem e trepam

Aos guinchos e há um barro que a chuva

Leva aos baixos e aos canos.

Mas quem diz que pode ser diverso ?

O que sussurram os beirais dos pesadelos

De privadas falas ? Deus não existe

Mas tem inúmeros representantes

Na TV e em programas de rádio.

À parte isso, crianças são dilaceradas

E sempre é possível levar um tiro perdido

No meio da cara.

(Nesse momento tranco a porta

E verifico a trava das janelas).


Rick Miyake
Que canto há de cantar o que perdura?


A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível



E o que eu desejo é luz e imaterial.



Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?



Hilda Hilst

(Da Noite - 1992) 19 ago

DO DESEJO

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.



Hilda Hilst

(Do Desejo - 1992)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Alta na desigualdade tira US$ 740 bi dos trabalhadores americanos

Por Robin Harding

Financial Times – VALOR

Foi tão intensa a sensação de Jonathan Smucker de que alguma coisa estava errada no cerne do sistema americano que ele deixou a pequena empresa que administrava, em Rhode Island, e foi para Nova York para participar da manifestação Ocupem Wall Street.



“Assim como muitos americanos, estou bem revoltado. Não por existirem pessoas ricas, mas porque as pessoas com muito dinheiro manipularam o sistema de tal forma nas últimas décadas que não existe mais igualdade de oportunidades para todos”, disse ele nos protestos da semana passada.



“Somos os 99%”, diz o slogan do movimento Ocupem Wall Street, em referência à crescente riqueza do 1% que ocupa o topo da pirâmide da distribuição de renda nos Estados Unidos. Mas um slogan igualmente válido poderia ser: “Recebemos 58%.”



Esse percentual é a parte da renda nacional americana recebida pelos trabalhadores, sob a forma de salários, em contraposição à renda dos investidores, embolsada sob a forma de lucros e juros. Essa parcela caiu para seu nível mais baixo desde o início da série histórica, após a Segunda Guerra Mundial, e é parte do motivo pelo qual a renda do segmento mais elevado de 1% – que tende a provir de investimentos de capital – subiu tanto.



Se os salários atuais mantivessem sua participação média do pós-guerra, de 63%, os trabalhadores estariam ganhando US$ 740 bilhões a mais este ano, cerca de US$ 5 mil por trabalhador, segundo cálculos do “Financial Times”.



Essa chamada participação do trabalho na renda nacional vem passando por uma leve queda na maioria das economias industrializadas, mas principalmente nas economias anglo-saxônicas, nas últimas décadas. Nesta recuperação, no entanto, está ocorrendo uma coisa estranha e sem precedentes. “As margens de lucro não apenas estão muito altas atualmente como o comportamento [das empresas] anda muito fora do comum”, disse Andrew Smithers, que administra a consultoria Smithers & Co. de Londres. As margens de lucro e os retornos sobre o capital são o outro lado da moeda da participação do trabalho.



Historicamente, a participação do trabalho tende a subir durante as recessões, uma vez que as empresas seguram os funcionários e sacrificam os lucros, e torna a cair na recuperação. Mas, durante a recessão de 2008, ocorreu o contrário com a participação do trabalho: ela caiu, e, quando se instaurou a recuperação, continuou caindo.



“O que é absolutamente notável é que os lucros do setor corporativo estão de 25 a 30% maiores do que antes da recessão, embora haja significativa parcela da capacidade instalada sem utilização e alta taxa de desemprego”, afirmou Lawrence Mishel, presidente do Instituto de Política Econômica, situado mais à esquerda do espectro político e sediado em Washington.



A queda da participação dos salários, aliada à transferência da renda do trabalho para os estratos de maiores salários, pode ser uma parte importante do motivo pelo qual a recuperação econômica dos EUA tem se mostrado anêmica.



Os trabalhadores de salários mais baixos consomem boa parte de sua renda, enquanto os que ganham mais e as pessoas cuja renda provém de ganhos de capital têm maior tendência a poupar. Isso não afetará a demanda total somente se os poupadores emprestarem para os que querem consumir ou investir em construções e em empresas iniciantes

Fonte : Valor Economico 15/11/2011

Sem-teto pede esmolas no distrito financeiro de La Défense, na capital francesa, Paris