quinta-feira, 19 de março de 2026

 Devido aos acontecimentos relatados em sua obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte“
(1852), Marx escreve que o Estado vai se constituindo como um estranho para a sociedade,
ou seja, um organismo com suas próprias leis internas, com a sua burocracia e com a sua
estrutura, a ponto de parecer independente. O Estado encontra-se num processo de
contínua centralização burocrática, militar e policial que oprime toda a sociedade como se
fosse um corpo separado, mas ao mesmo tempo ele exprime o poder da classe dominante.
Segundo Marx somente a ditadura do proletariado poderia destruir essa máquina imensa na
qual se transformou o Estado. 

Marx acreditava que a luta de classes conduziria à ditadura do proletariado, ou seja,
o proletariado, em luta contra a burguesia e através da revolução, transformar-se-ia em
classe dominante. Esta ditadura conduziria à supressão de todas as classes, isto é, a
ditadura do proletariado tendo como objetivo a eliminação do antagonismo das classes
tende à gradual extinção do instrumento de domínio de classe que é o Estado. Dessa forma,
o Estado em que à classe dominante é o proletariado está destinado a ser o último, ou
melhor, ele é uma transição para uma sociedade sem classes.

Por fim podemos dizer que para Marx, como teórico da revolução, o Estado nasce da
sociedade, nasce das classes, é a expressão da luta de classes e da dominação de uma
delas, ou melhor, o Estado é a forma de dominação de uma classe sobre as outras. 

Diferentemente de Marx que estava preocupado com as relações sociais decorrentes
do modo de produção capitalista, numa tentativa de elaborar uma teoria sistemática da
estrutura e das transformações sociais, Weber tem como ponto de partida nos seus estudos
a ação social, a conduta humana dotada de sentidos.

O Estado racional weberiano é definido como uma comunidade humana que
pretende o monopólio do uso legitimo da força física dentro de determinado território
(WEBER, 1991). O Estado assim é a única fonte do direito de uso à violência e se constitui
numa “relação de homens dominando homens” e essa relação é mantida por meio da
violência considerada legítima. Segundo nosso autor, para que um Estado exista é
necessário que um conjunto de pessoas obedeça à autoridade alegada pelos detentores do
poder no referido Estado e por outro lado, para que os dominados obedeçam é necessário
que os detentores do poder possuam uma autoridade reconhecida como legítima. Dessa
forma, observamos que para Weber existem dois elementos essenciais que constituem o
Estado: a autoridade e a legitimidade. Desses dois elementos Weber apresenta três tipos
puros de dominação legítima, cada um deles gerando diferentes categorias de autoridade.
Esses tipos são classificados como puros porque só podem ser encontrados isolados no nível
da teoria, combinando-se quando observados em exemplos concretos. 
O primeiro deles é a dominação tradicional. Significa aquela situação em que a
obediência se dá por motivos de hábito, porque tal comportamento já faz parte dos
costumes. É a relação de dominação enraizada na cultura da sociedade. A dominação
tradicional se especifica por encontrar legitimidade na validade das ordenações e poderes de
mando herdadas pela tradição. Os que exercem a dominação estão determinados pela
tradição. Os dominados não são membros de uma associação, mas companheiros ou súditos
do senhor. Pode haver ou não quadro administrativo. As relações do quadro administrativo
(quando existe um) com o soberano não são determinadas pelo dever do cargo, mas pela
fidelidade pessoal. Não se obedece a uma ordem estatuída, mas à pessoa delegada pela
tradição. As ordens são legítimas em parte pela força da tradição, em parte pelo arbítrio do
soberano em interpretar essa tradição.

O segundo tipo de dominação é a carismática. Nela, a relação se sustenta pela crença
dos subordinados nas qualidades superiores do líder. Essas qualidades podem ser tanto dons
supostamente sobrenaturais quanto a coragem e a inteligência inigualáveis. A dominação
carismática se especifica por encontrar legitimidade no fato de que a obediência dos
dominados é uma obediência ao carisma e ao seu portador. Carisma é a qualidade
extraordinária de uma personalidade considerada sobrenatural, sobre-humana ou mágica. A
obediência é obediência ao líder enquanto portador de carisma. A administração se dá sem
qualquer quadro racional, sem regras fixas, hierarquia ou competências. Simplesmente o
chefe carismático cria ou anuncia novos mandamentos (direitos, normas, punições, etc) pela
"revelação" ou por sua vontade de organização.

O último tipo de dominação é a dominação legal, ou seja, através das leis. Nessa
situação, um grupo de indivíduos se submete a um conjunto de regras formalmente
definidas e aceitas por todos os integrantes. São essas regras que determinam ao mesmo
tempo a quem e em que medida as pessoas devem obedecer. A dominação racional-legal se
especifica por encontrar legitimidade no direito estatuído de modo racional, com pretensão
de ser respeitado pelos membros da associação. O direito racional é um conjunto abstrato
de regras a serem aplicadas em casos concretos. A administração racional supõe cuidar dos
interesses da associação, nos limites da lei. O soberano está sujeito à lei. Há uma ordem de
caráter impessoal. Quem obedece, não obedece à pessoa do soberano, mas obedece ao
direito e o faz como membro da associação. O exercício da autoridade racional depende de
um quadro administrativo hierarquizado e profissional, "separado" do poder de controle
sobre os meios de administração. A administração racional se caracteriza, tipicamente, pela
existência de uma burocracia. Correspondem ao tipo de dominação legal não apenas a estrutura moderna do Estado, mas toda organização, empresarial ou não, que disponha de
um quadro administrativo hierarquizado.

Weber como teórico da ação, não via a dominação da mesma forma que Marx como
algo inconsciente, pelo contrário ele acreditava que a dominação pudesse ser consciente,
pois, para o nosso autor, mesmo quando o homem escolhe pacificamente, ainda assim há
dominação. Na visão weberiana a dominação estará sempre presente, o que interessa é que
ela seja considerada correta, aceita e legitima. 

Para ele o Estado deveria funcionar como agente para garantir a organização
moral da sociedade e deveria atuar como centro de organização mental dos grupos
secundários, ou seja, aqueles grupos que refletiam os objetivos da coletividade (BELLAMY,
1994:169). 
Para o nosso autor os grupos secundários são de grande importância por duas razões
essenciais. A primeira delas, é que esses grupos são mais diretamente responsáveis pela
educação do indivíduo, por forjar sua identidade. A segunda razão diz respeito ao papel que
desempenham como contrapeso à força do Estado e como mediadores dos interesses mais
específicos dos indivíduos que representam. Dessa forma, os grupos secundários seriam
aqueles que equilibrariam o poder do Estado e este teria como uma de suas funções
legitimar e garantir o individualismo, ou seja, seria o Estado quem afirmaria e faria
respeitar os direitos do indivíduo. Segundo Durkheim, a nossa individualidade moral é um
produto do Estado, pois, é ele que “tende a assegurar a individuação mais completa que o
estado social permita. Longe de ser o tirano do indivíduo, ele é quem resgata o indivíduo da
sociedade” (DURKHEIM, 2002:96).

O Estado durkheimiano não seria o detentor de um poder executivo, mas sim
deliberativo. A sua principal tarefa é ser um órgão cuja responsabilidade é elaborar certas
representações que deveriam ser aprovadas pela coletividade, dessa forma, seria ele quem
deveria legislar para formular as normas e o ethos do conjunto da sociedade.

Em suma, Durkheim defende a idéia de que o indivíduo é produto da sociedade
como um todo e sua existência só se torna real mediante a atuação do Estado. Entretanto, é
somente com um equilíbrio de forças entre os grupos secundários e o Estado que o indivíduo
pode existir de fato, afinal, “é desse conflito de forças sociais que nascem as liberdades
individuais” (DURKHEIM, 2002:88). 

Estado instrumento de uma classe social. O Estado não detém poder. 
O poder de Estado é sempre o exercício de uma classe social. O Estado liberal é apenas o
uso da violência social, isto é, um aparelho de repressão e de dominação.

Já Weber faz uma análise normativa sobre o Estado. Para este clássico o Estado
moderno é a probabilidade dele possuir o monopólio legítimo da força física: Estado-coação.
Além da repressão, o Estado moderno existe como um tipo puro de dominação. Para Weber,
a dominação racional-legal, dominação burocrático-moderna, pode existir como um
mecanismo de integração dos indivíduos à ordem moderna. Ao contrário de Marx, Weber
não acreditava que o aparato burocrático do Estado pudesse ser superado pelos meios
revolucionários.

Já Durkheim considerava o Estado como representante da sociedade, sem explorar
a possibilidade deste representar apenas a elite dominante. Ao contrário de Weber,
Durkheim subordinava o Estado à sociedade. Ao contrário de Marx, Durkheim rejeitava a
idéia do desaparecimento do Estado e acreditava que na sociedade moderna haveria uma
expansão da jurisdição estatal. Além destas diferenças, Durkheim considerava que na
sociedade moderna o Estado ocuparia o lugar da Igreja, pois o considerava como principal
agente de implementação ativa dos valores do individualismo moral. Fazendo uma analogia
com os órgãos do corpo humano, Para este clássico o Estado é um órgão por excelência de disciplina moral. 
BELLAMY, Richard. Liberalismo e sociedade moderna. São Paulo: Editora da UNESP, 1994. p.
107-195
 BIRNBAUM, Norman. Interpretações conflitantes sobre a gênese do capitalismo: Marx e
Weber. In: GERTS, René E. (org). Max Weber e Karl Marx. São Paulo: Hucitec, 1994.
Capítulo IV, p. 99-119.
 DURKHEIM, Émile Davi. Lições de sociologia: a moral, o direito e o Estado. São Paulo:
Martins Fontes, 2002.

GIDDENS, Anthony. Política, sociologia e teoria social: encontros com o pensamento social
clássico e contemporâneo. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

MARX, Karl. Introdução a uma Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: Temas de
Ciências Humanas n. 2. São Paulo: Grijalbo, 1977.
MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Edições Mandacaru, 1990.

MARX, Karl. As lutas de classe na França. In: Textos. São Paulo: Alfa-Ômega, s.d. Volume
3.  
WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora UNB, 1991. Volume I, capítulo I e III,
p. 3-35; 139-162. Volume II, p. 517-580.   O ESTADO E DOMINAÇÃO NOS PRESSUPOSTOS DE MARX, WEBER E DURKHEIM

Silvia Jurema Leone Quaresma*  http://www.achegas.net/numero/42/silvia_jurema_42.pdf

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

FUTURO


              
Verdes linhas do invisível outono,
entre réstias de esperança incinerada
um filamento áureo
revivido e decantado nos porões
de memórias obsecradas.
Polém da legendária semeadura
história,da história,da história
rezam nascituras horas.
Fito o secular destino
faminto de futura caminhada
onde corteja o esquife do não nascido;
vanguardas espreitam o futuro dos
dejetos e reacendem fetos sob o cinza,
no pó a verdade fermenta,
o futuro é apenas uma cinza.

             Tullio Stefano

Rio de Janeiro-RJ,2007

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

De tanto ver triunfar as nulidades,

de tanto ver prosperar a desonra ,

de tanto ver crescer a injustiça  ,

de tanto ver agigantarem-se os poderes

nas mãos dos mãos ,

O homem chega a desanimar -se da virtude

de rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.


Rui Barbosa
Não é porque se teme cometê-la, mas é porque se teme sofrê-la , que se condena a injustiça.

Platão

domingo, 11 de março de 2018

Economia não e nada mais do que sociologia e antropologia quantificadas.

Sebastião Salgado.
Revista Republica.20 de janeiro de 2000
O poder acaba isolando seus ocupantes de todas as outras grandes ou pequenas atividades cotidianas , o que no limite , leva a tomar as facilidades como inerentes a condiçao humana e nao um privilegio dos vips.

Octavio Rossi.
FSP 24 de Agosto de 1997

domingo, 16 de abril de 2017

Introdução à leitura de Hegel


Alexandre Kojève
560 páginas
ISBN: 978-85-85910-44-0
Tradução: Estela dos Santos Abreu
A vida e o pensamento de Alexandre Kojève confundem-se com os acontecimentos mais marcantes do século XX. Nascido em uma família da alta aristocracia russa, ainda muito jovem Kojève foi preso com seus pais no calor dos acontecimentos de outubro de 1917. Na prisão, começou a simpatizar com os revolucionários bolcheviques. Passada a tormenta, a família foi libertada e buscou exílio da Alemanha, onde o inquieto Kojève mergulhou profundamente no estudo da filosofia clássica. Deixou a Alemanha durante a ascensão do nazismo e aceitou suceder Alexandre Koyré em uma cátedra na École Pratique des Hautes Études, em Paris. Ali, de janeiro de 1933 a maio de 1939, tornou-se um dos mais importantes introdutores do pensamento de Hegel na França. Seu curso adquiriu fama insuperável. Por ele passaram Jean-Paul Sartre e Jacques Lacan, entre muitos outros intelectuais que nunca esconderam sua dívida de gratidão com o mestre. No segundo após-guerra, Kojève tornou-se conselheiro da Presidência da França e um dos mais influentes articuladores do projeto de uma Europa unificada. Morreu em 1968.

    Russo por nascimento, alemão por formação, francês por escolha, Kojève foi um intelectual brilhante, dotado de vastíssima erudição. Sempre envolvido em projetos ambiciosos, quase inacabáveis, publicou relativamente pouco. Vários de seus textos principais, geralmente muito extensos, permaneceram incompletos e tiveram edições póstumas.

    "Introdução à leitura de Hegel" recupera seus cursos da década de 1930 sobre a "Fenomenologia do Espírito", obra que foi considerada por Jürgen Habermas "o grande acontecimento da filosofia alemã". Contém textos do próprio Kojève – inclusive a famosa introdução, redigida de forma independente e que se tornou um pequeno clássico – e anotações tomadas por Raymond Queneau, revistas e aprovadas pelo professor. Doze conferências de Kojève e dois outros textos seus sobre Hegel completam o livro.

    O curso seguiu passo a passo a obra comentada, mas destacou especialmente o capítulo IV da segunda seção, consagrado à consciência-de-si. O ponto de partida para a constituição do sujeito – diz Kojève, lendo Hegel – é o desejo, mas não um desejo dirigido a uma coisa qualquer que exista no mundo. O homem se torna humano quando deseja outro desejo. Abre-se assim, ao homem, um novo espaço de liberdade, que se manifesta antes de tudo como um desejo de reconhecimento e produz uma luta de morte por puro prestígio, o ato fundante da história, o ato antropogênico por excelência.

    Mas, para que haja história, é preciso que haja relação entre homens vivos. A luta não pode terminar com a aniquilação de um dos lados. Um deles deve abdicar do combate, ou seja, colocar a vida acima da liberdade, tornando-se escravo daquele que colocou a liberdade acima da vida e prosseguiu lutando. Estabelece-se uma relação de tipo senhor-escravo. Porém, nela se desenvolve, concentrada neste segundo polo, outra atividade essencial ao projeto do homem: o trabalho.

    A descrição da dialética que assim se estabelece é um dos pontos culminantes do pensamento humano em todas as épocas, e sua conclusão é surpreendente: o homem integral, livre, satisfeito com o que é, o homem que se aperfeiçoa, não é o senhor nem o escravo, mas sim o escravo que consegue suprimir sua sujeição. A história humana aponta, pois, nessa direção. Karl Marx será o principal herdeiro intelectual dessa construção.

    A "Fenomenologia do Espírito" – ou "ciência da experiência da consciência", primeiro título escolhido por Hegel – é a descrição do caminho das experiências humanas na constituição do Espírito, e o fio que as une, nas palavras de Henrique Vaz, "é o discurso dialético que mostra a necessidade de se passar de uma estação a outra, até que o fim se alcance no desvelamento total do sentido do caminho (...)."

    Por isso, a Fenomenologia integra um sistema. Encadeia-se com a Lógica para produzir o saber absoluto, que ajusta plenamente a certeza do sujeito e a verdade do objeto. Para Hegel, só a era iniciada com Kant na filosofia e com a Revolução Francesa na política criou as condições para a construção desse saber. É este o pensamento detalhadamente analisado por Alexandre Kojève.


                        César Benjamin

Introdução a Lévi-Strauss


Frédéric Keck

392 páginas

ISBN: 9788578660819

Tradução: Vera Ribeiro



Ao longo da história, o exercício da antropologia admitiu duas abordagens bem diferentes. Exemplo da primeira foi Sir James Frazer (1845-1941), homem de vasta erudição que procurou observar o mundo em grande escala, a partir dos livros, sem ter contato direto com a vida dos povos primitivos que descreveu. Exemplo da segunda foi Bronislaw Malinowski (1884-1942), cuja obra se baseou em pesquisas que realizou pessoalmente, durante quatro anos, em uma minúscula aldeia da Melanésia.

Claude Lévi-Strauss (1908-2009) experimentou os dois caminhos. Foi um intelectual da tradição erudita de Frazer, mas não buscou construir uma obra detalhista e enciclopédica; fez trabalho de campo como Malinowski, mas não compartilhou tão extensamente a vida cotidiana dos povos que estudou.

Nomeado professor de filosofia na França em 1931, Lévi-Strauss veio para o Brasil em 1935 para ensinar sociologia na Universidade de São Paulo e pesquisar povos indígenas. Não pretendia descrever sociedades específicas, e sim compreender melhor o espírito humano. Suas observações sobre estruturas de parentesco, mitos e sistemas primitivos de classificação levaram-no a fundar a antropologia estrutural.

O que chamou de "estruturas" não são realidades empiricamente observáveis, mas construções intelectuais abstratas que pretendem tornar inteligível o real. Para ele, a cultura funciona como uma linguagem e a vida social é um sistema de signos. Assim como o indivíduo falante não é capaz de explicar os mecanismos da língua que usa, os integrantes de uma sociedade também desconhecem a natureza profunda das práticas sociais em que estão imersos.

Daí a simetria entre as duas disciplinas: a linguística procura encontrar os princípios gerais que se escondem atrás da diversidade das línguas, enquanto a antropologia estrutural busca desvelar as propriedades fundamentais que são comuns às culturas humanas. Para isso, é inútil acumular observações sobre fatos, pois elas nunca serão exaustivas. É preciso selecionar os elementos mais significativos e analisá-los extensa e cuidadosamente, construindo modelos que nos permitam compreender todos os fenômenos do mesmo tipo. O que se busca é descrever os aspectos inconscientes da existência social, tendo em vista evidenciar os elementos universais do pensamento humano e as leis gerais do nosso comportamento.

A antropologia estrutural de Lévi-Strauss renovou a antiga disciplina e interligou todas as ciências sociais, com evidentes implicações filosóficas. Teve enorme impacto no mundo inteiro. Despertou polêmicas, destacadas nesta Introdução, mas é unanimemente considerada como um monumento intelectual do século XX.


César Benjamin

sábado, 27 de agosto de 2016

E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.
.

— Machado de Assis, no livro “Quincas Borba”. São Paulo: Ática, 1998

O ‘massacre esquecido’: o genocídio de gregos e assírios.


O genocídio refere-se ao massacre em massa dos caldeus, assírios e da população síria do Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. A população assíria da Mesopotâmia (de Tur Abdin, Hakkari, Van, Siirt, regiões do atual sudeste da Turquia e da região noroeste do Irã, Úrmia) foram deportadas e massacradas pelas forças turco-otomanas entre 1914 e 1920. As estimativas sobre o número total de mortos variam. Relatórios contemporâneos colocam o número em 270 mil, embora as estimativas recentes revisam o número para 500 a 750 mil vítimas, representando cerca de 70% da população assíria do período

Quase três milhões de cristãos assírios, armênios e gregos foram assassinados pelos turcos otomanos islâmicos durante a Primeira Guerra Mundial por causa de sua etnia e fé.
O genocídio assírio ocorreu no contexto semelhante e no mesmo período de tempo do Genocídio armênio e do Genocídio Grego.

O genocídio dos gregos pônticos aconteceu nas províncias do sudeste do Mar Negro, no Império Turco-Otomano durante o século XX pela administração dos "Jovens Turcos". Tem sido argumentado que os assassinatos continuaram durante o movimento nacional turco, liderado por Mustafa Kemal Atatürk
Tudo isto aconteceu principalmente em meio a um momento em que o Exército da Turquia derrotava os gregos na região durante a guerra dos dois países e o processo turco de independência. Cidades como Gallipoli e outras à beira do mar Egeu foram fortes alvos de perseguições, principalmente focadas nos gregos pônticos (Oeste) e anatólios (mais a sul).

Segundo várias fontes, o número oficial de gregos mortos na Anatólia foi de 300.000 para 360.000 homens, mulheres e crianças. Alguns dos sobreviventes e refugiados, especialmente aqueles das províncias orientais, refugiaram-se no vizinho Império Russo.

A Turquia, nega a veracidade histórica do genocídio armênio e do genocídio assírio. Da mesma forma o genocídio armênio.


Fonte: Arnold J. Toynbee, The Western question in Greece and Turkey: a study in the contact of civilisations, Boston : Houghton Mifflin, 1922, p. 312.

"HÁ UMA PROFUNDA RUPTURA EM CURSO

André Singer

O julgamento de Dilma Rousseff, cujo início efetivo teve lugar nesta quinta (25), no Senado, é mais importante pelo que oculta do que pelo que revela. A observância meticulosa dos dispositivos legais do processo faz parecer que tudo funciona de modo normal. Mas, por baixo da capa de legalidade, está em curso um atentado, que pode ser mortal, ao espírito da Constituição de 1988.

Os que têm paciência de acompanhar os debates entre a defesa e a acusação percebem que o tema de fundo é a política econômica desenvolvida pela presidente afastada no seu primeiro mandato. Os questionados decretos de suplementação orçamentária e pagamento do Plano Safra pelo Banco do Brasil, ambos de 2015, são meros pretextos para trazer à tona aquilo que realmente incomoda: os gastos de 2014.
Ocorre que tal conduta foi referendada nas urnas. Dilma acabou reeleita porque, apesar dos pesares, manteve o emprego e a renda dos trabalhadores, e isso não teria acontecido caso houvesse feitos os cortes que a ortodoxia econômica propunha. O fato de ter depois realizado o ajuste recessivo exigido, quando prometera não fazê-lo, é grave, mas não justifica o impeachment.

Se justificasse, Sarney precisaria ter sido afastado em 1987 e FHC em 1999. Respeitada a soberania popular, caberia ao eleitorado julgar, em 2018, o destino das forças políticas envolvidas no processo, tal como aconteceu em 1989 e 2002. Convém lembrar que, nos dois casos, a situação perdeu.

Mas, em decorrência da crise econômica, da Lava Jato e da presença de Eduardo Cunha à frente da Câmara, abriu-se uma tripla janela de oportunidade. Michel Temer enxergou a chance de chegar ao poder. Os partidos conservadores vislumbraram a possibilidade de arruinar o PT, talvez para sempre. Os capitais viram a oportunidade de fazer um acerto de contas com os avanços sociais previstos desde 1988 e postos em prática, no ritmo homeopático conhecido, pelo lulismo.

Por isso, a provável condenação de Dilma representa muito mais do que a perda de dois anos de estadia no Alvorada pela atual mandatária. Significa um golpe profundo contra a alma cidadã da Carta constitucional vigente. A maior demonstração está na PEC 241, que cria o teto para os gastos do Estado. Nas palavras do seu mentor, o ministro Henrique Meirelles, a 241 é nada mais nada menos que "a primeira mudança estrutural na questão da despesa pública desde a Constituição de 1988".

Até que ponto o conservador espírito de 2016 conseguirá desfazer o que foi acumulado em torno de 1988 só a luta real dirá. Mas convém a sociedade brasileira tomar consciência de que, por baixo dos formalismos senatoriais, há uma violenta ruptura em curso nestes dias."


A imprensa brasileira, está estacionada no século XIX inconsolável até hoje com a abolição. Não se recuperou do trauma da derrota para os abolicionistas. Aquele quadro patriarcal que aparece na foto oficial de Temer e seus homens brancos, ricos, corruptos da confraria dos bodes velhos, se parace com o do grupo que se opôs aos clube republicano que centralizava as grandes questões nacionais do século XIX, entre elas, a abolição. Isso me veio a cabeça depois de ler o artigo pró-golpe de Demetrios Magnoli hoje na Folha. Todos sabem que entre os brasileiros, Demetrios é o escravocrata o mais revoltado com a abolição e, "no campo das ideias", vive convocando gente através de seus livros, patrocinados pelos "Instituto Millenium" da Globo, para a recriação das senzalas.


Carlos Henrique Machado Freitas

Nos iremos, me iré con los que aman


Silvina Ocampo

Nos iremos, me iré con los que aman,
dejaré mis jardines y mi perro
aunque parezca dura como el hierro
cuando los vientos vagabundos braman.

Nos iremos, tu voz, tu amor me llaman:
dejaré el son plateado del cencerro
aunque llegue a las luces del desierto
por ti, porque tus frases me reclaman.

Buscaré el mar por ti, por tus hechizos,
me echaré bajo el ala de la vela,
después que el barro zarpe cuando vuela

la sombra del adiós. Como en los fríos
lloraré la cabeza entre tu mano
lo que me diste y me negaste en vano.

MÁS POEMAS DE SILVINA OCAMPO

Biblioteca Digital Ciudad Seva

El presidente del jurado


Charles Dickens
Han pasado ya algunos años desde que se cometió en Inglaterra un asesinato que atrajo poderosamente la atención pública. En nuestro país se oye hablar con bastante frecuencia de asesinos que adquieren una triste celebridad. Pero yo hubiese enterrado con gusto el recuerdo de aquel hombre feroz de haber podido sepultarlo tan fácilmente como su cuerpo lo está en la prisión de Newgate. Advierto, desde luego, que omito deliberadamente hacer aquí alusión alguna a la personalidad de aquel hombre.

Cuando el asesinato fue descubierto, nadie sospechó -o, mejor dicho, nadie insinuó públicamente sospecha alguna- del hombre que después fue procesado. Por la circunstancia antes expresada, los periódicos no pudieron, naturalmente, publicar en aquellos días descripciones del criminal. Es esencial que se recuerde este hecho.

Al abrir, durante el desayuno, mi periódico matutino, que contenía el relato del descubrimiento del crimen, lo encontré muy interesante y lo leí con atención. Volví, incluso, a leerlo otra vez, o quizá dos. El descubrimiento había tenido lugar en un dormitorio. Cuando dejé el diario tuve la impresión, fugaz, como un relámpago, de que veía pasar ante mis ojos aquella alcoba. Semejante visión, aunque instantánea, fue clarísima, tanto que hasta pude observar, con alivio, la ausencia del cuerpo de la víctima en el lecho mortuorio.

Esta curiosa sensación no se produjo en ningún lugar misterioso, sino en una de las vulgares habitaciones de Piccadilly en que me alojaba, próxima a la esquina de St. James Street. Y fue una experiencia nueva en mi vida.

En aquel instante me hallaba sentado en mi butaca, y la visión fue acompañada de un estremecimiento tan fuerte, que la desplazó del lugar en que se encontraba; si bien procede advertir que las patas de la butaca terminaban en sendas ruedecillas. A continuación me acerqué a una ventana (la habitación, situada en un segundo piso, tenía dos) a fin de tranquilizarme con la visión del animado tráfago de Piccadilly.

Era una luminosa mañana de otoño y la calle se extendía ante mí resplandeciente y animada. Soplaba un fuerte viento. Al asomarme, el viento acababa de levantar numerosas hojas caídas en el parque, elevándolas y formando con ellas una columna en espiral. Cuando la columna se derrumbó y las hojas se dispersaron, vi a dos hombres en el lado opuesto de la calle, caminando de oeste a este. Iban uno tras otro. El primero miraba con frecuencia hacia atrás, por encima del hombro. El segundo lo seguía a una distancia de unos treinta pasos, con la mano derecha levantada amenazadoramente. Al principio, la singularidad de tal actitud en una avenida tan frecuentada atrajo mi atención, pero en seguida se desvió hacia otra y más notable particularidad: nadie reparaba en ellos. Ambos hombres se movían entre los demás peatones con una suavidad increíble, aun sobre aquel pavimento tan liso, y nadie, según pude observar, los rozaba, los miraba o les abría paso. Al llegar ante mi ventana los dos dirigieron su mirada hacia mí. Entonces distinguí sus rostros con toda claridad y me di cuenta de que podría reconocerlos en cualquier parte; no se crea por esto que yo aprecié conscientemente nada de extraordinario en sus rostros, excepto el detalle de que el hombre que iba en primer lugar tenía un aspecto muy abatido y que la faz de su perseguidor era del mismo tono de la cera sin refinar.

Soy soltero y toda mi servidumbre se limita a un criado y su mujer. Trabajo en la filial de un banco, como jefe de un negociado, y debo agregar que desearía sinceramente que mis deberes fuesen tan leves como generalmente se supone. Lo digo porque esos deberes me retenían en la ciudad aquel otoño, a pesar de hallarme muy necesitado de reposo y de un cambio de ambiente. No es que estuviese enfermo, pero no me encontraba bien. El lector se hará cargo de mi estado si le digo que me sentía cansado, deprimido por la sensación de llevar una vida monótona y “ligeramente dispéptico”. Mi médico, hombre de mucho prestigio profesional, me aseguró, a requerimiento mío, que éste era mi verdadero estado de salud en aquella época; que no padecía ninguna enfermedad ni grave depresión, y yo cito sus palabras al pie de la letra.

A medida que las circunstancias del asesinato iban intrigando gradualmente al público, yo procuraba alejarlas de mi cerebro tanto como era posible alejar un objeto del interés y comentarios generales. Supe que se había dictado un veredicto previo de asesinato con premeditación y alevosía contra el presunto criminal, y que éste había sido conducido a Newgate para que estuviese presente cuando se dictara sentencia definitiva. Me enteré, igualmente, de que el proceso quedaba aplazado para una de las próximas audiencias de la Sala Central de lo Criminal, fundándose en algún precepto de la Ley y en la necesidad de dejar tiempo al abogado para preparar la defensa. Es posible también que yo me enterase, aunque creo que no, de la fecha exacta o aproximada en que debía celebrarse la vista de la causa.

Mi salón, dormitorio y tocador se encuentran en el mismo piso. La última de dichas habitaciones sólo tiene entrada por el dormitorio. Cierto que tiene también una puerta que da a la escalera, pero, en el tiempo que nos ocupa, hacía años ya que mi baño la obstruía, por tanto la habíamos inutilizado, cubriéndola de arpillera claveteada.

Una noche, a hora bastante avanzada, estaba yo en mi alcoba, dando instrucciones al criado antes de acostarme; la puerta que comunicaba con el cuarto de baño que daba frente a mí, en aquel momento estaba cerrada. Mi criado daba la espalda a la puerta. Y he aquí que, de repente, vi abrirse aquella puerta y aparecer a un hombre que reconocí en el acto y que me hizo una misteriosa señal. Era el segundo de los dos que caminaban aquel día en Piccadilly, el que tenía la cara del color de la cera sin refinar.

Hecho aquel signo, la figura retrocedió y cerró la puerta de nuevo. Rápidamente me acerqué a la puerta del tocador, la abrí y miré. Yo tenía en la mano una vela encendida. No esperaba encontrar a nadie allí, y, en efecto, no encontré a nadie.

Comprendiendo que mi criado estaba sorprendido, me volví hacia él y le dije:

-¿Creería usted, Derrick, que a pesar de encontrarme en la plenitud de mis facultades he imaginado ver…?

Al hablar, apoyé mi mano en su hombro. Con un repentino sobresalto, él exclamó:

-¡Oh, Dios mío, sí! Ha visto usted a un muerto que le hacía señales.

No creo que Juan Derrick, devoto y honrado servidor mío durante más de veinte años, hubiese captado la situación antes de que yo lo tocase. Su reacción, cuando apoyé mi mano sobre él, fue tan súbita, que albergo la firme certeza de que la provocó aquel contacto.

Pedí a Derrick que me trajese coñac, le ofrecí una copa y yo tomé otra. No le dije ni una palabra sobre lo que me había sucedido anteriormente. Me sentía seguro de no haber visto nunca aquel rostro fantasma, salvo la mañana de Piccadilly.

Pasé la noche muy inquieto, aunque sintiendo cierta certidumbre, difícil de explicar, de que la aparición no volvería. Al apuntar el día caí en un pesado sueño, del que me despertó Derrick cuando entró en mi habitación con una papel en la mano.

Aquel papel había motivado una ligera discusión entre su portador y mi sirviente. Era una citación para concurrir como jurado a una próxima sesión de la Audiencia. Yo nunca había sido requerido como jurado, y Juan Derrick lo sabía. Él opinaba -aun hoy no sé a punto fijo si con razón o no- que era costumbre nombrar jurados a personas de menor categoría que yo y no quiso, en consecuencia, aceptar la citación. El hombre que la llevaba tomó la negativa de mi criado con mucha frialdad. Dijo que mi asistencia o no asistencia al tribunal le tenía sin cuidado, y que su cometido se limitaba a entregar la citación.

Durante un par de días estuve indeciso entre asistir o no. No sentí, en verdad, la menor influencia misteriosa en ningún sentido. Estoy tan absolutamente seguro de esto como de todo lo que estoy narrando. Por último, resolví asistir, ya que de este modo rompería la monotonía de mi vida.

La mañana de la cita resultó ser una muy cruda del mes de noviembre. En Piccadilly había una densa niebla que se oscurecía por momentos hasta adquirir una negrura opresiva.

Cuando llegué al Palacio de Justicia, encontré los pasillos y escaleras que conducían a la sala del tribunal iluminados por luces de gas. La sala estaba alumbrada de igual modo. Creo sinceramente que hasta que los ujieres no me condujeron a ella y vi la concurrencia que se apiñaba allí, no recordé que la vista del proceso por el mencionado asesinato se celebraba aquel día. Incluso me parece que hasta que, no sin considerables dificultades por el mucho gentío, fui introducido en la sala de lo criminal, ignoré si se me citaba a ésta o a otra. Pero lo que ahora señalo no debe considerarse como un aserto positivo, porque este extremo no está suficientemente aclarado en mi mente.

Me senté en el lugar de los jurados y, mientras esperaba, contemplé la sala a través del espeso vapor mixto de niebla y vaho de respiraciones que constituía su atmósfera. Observé la negra bruma que se cernía, como sombrío cortinón, más allá de las ventanas, y escuché el rumor de las ruedas de los vehículos sobre la paja o el serrín que alfombraba el pavimento de la calle. Oí también el murmullo de la concurrencia, sobre el que a veces se elevaba alguna palabra más fuerte, alguna exclamación en voz alta, algún agudo silbido. Poco después entraron los magistrados, que eran dos, y ocuparon sus asientos. Se acalló el rumor en la sala, y se dio la orden de hacer comparecer al acusado. En el mismo instante en que se presentó lo reconocí como el primero de los dos hombres que yo viera caminando por Piccadilly.

Si mi nombre hubiese sido pronunciado en aquel instante, creo que no hubiese tenido ánimos para responder. Pero como lo mencionaron en sexto u octavo lugar, me encontré con fuerzas para contestar: “¡Presente!”

Y ahora, lector, fíjese en lo que sigue. Apenas hube ocupado mi lugar, el preso, que nos estaba mirando a todos con fijeza, pero sin dar muestras de interés particular, experimentó una agitación violenta e hizo una señal a su abogado. Tan manifiesto era el deseo del acusado de que me sustituyesen, que ello provocó una pausa, en el curso de la cual el defensor, apoyando la mano en la barra, cuchicheó con su defendido, moviendo la cabeza. Supe luego -por el propio abogado- que las primeras y presurosas palabras del acusado habían sido éstas: “Haga sustituir a ese hombre como sea”. Pero, al no alegar razón alguna para ello, y habiendo de reconocer que no me conocía ni había oído mi nombre hasta que lo pronunciaron en la sala, no fue atendido su deseo.

Como no deseo avivar la memoria de la gente respecto a aquel asesino, y también porque no es indispensable para mi relato narrar al detalle los incidentes del largo proceso, me limitaré a citar las particularidades que nos acontecieron a los jurados y a mí durante los diez días, con sus noches, en que estuvimos juntos. Mencionaré, sobre todo, las curiosas experiencias personales que atravesé. Es en este aspecto, y no acerca del asesino, sobre lo que quiero despertar el interés del lector.

Me designaron presidente del jurado. En la segunda mañana del proceso, después de invertir más de dos horas en examinar las piezas de convicción -yo podía saber el transcurso del tiempo porque oía la campana del reloj de una iglesia-, habiéndoseme ocurrido dirigir la mirada a mis compañeros de jurado, encontré una inexplicable dificultad en contarlos. Los enumeré varias veces y siempre con la misma dificultad. En resumen, contaba uno de más.

Toqué suavemente al más próximo a mí y le cuchicheé:

-Hágame el favor de contarnos.

Él, aunque pareció sorprendido por la petición, volvió la cabeza y nos contó a todos.

-¡Pero si somos trece! -exclamó-. No, no es posible. Uno, dos… Somos doce.

A través de mis cálculos de aquel día saqué en limpio que éramos siempre doce si se nos enumeraba individualmente, pero que siempre salía uno de más si nos considerábamos en conjunto. Éramos doce, pero alguien se nos agregaba con insistencia, y yo, en mi fuero interno, sabía de quién se trataba.

Nos alojaron en la London Taverns. Dormíamos todos en un amplio aposento, en lechos individuales, y estábamos constantemente atendidos y vigilados por un funcionario. No veo razón alguna para omitir el verdadero nombre de aquel funcionario. Era un hombre inteligente, amabilísimo, cortés y muy respetado. Tenía una agradable apariencia, bellos ojos, patillas envidiablemente negras y voz agradable y bien timbrada. Se llamaba Harker.

Nos acostamos en nuestros lechos respectivos. El de Harker estaba colocado transversalmente ante la puerta. La segunda noche, como no sentía deseos de dormir y vi que Harker permanecía sentado en su cama, me acerqué a él, me senté a su lado y le ofrecí un poco de rapé. Su mano rozó la mía al tocar la tabaquera y en el acto le agitó un estremecimiento y exclamó:

-¿Qué es eso?

Siguiendo la dirección de su mirada divisé a quien esperaba ver: el segundo de los hombres de Piccadilly. Me incorporé, anduve unos cuantos pasos, me paré y miré a Harker. Éste, que ya no sentía la menor turbación, me dijo con toda naturalidad, riendo:

-Me había parecido por un momento que había un jurado de más, aunque sin cama. Pero es un efecto de la luz de la luna.

Sin hacer revelación alguna al señor Harker, me limité a proponerle que diéramos una paseíto de un extremo a otro de la habitación. Mientras andábamos procuré vigilar los movimientos de la misteriosa figura. Ésta se detenía por unos instantes a la cabecera de cada uno de mis once compañeros de jurado, acercándose mucho a la almohada. Seguía siempre el lado derecho de cada cama, y cruzaba ante los pies para dirigirse a la siguiente. Por los movimientos de su cabeza parecía que se limitaba a mirar, pensativo, a cada uno de los que descansaban. No reparó en mí ni en mi lecho, que era el más próximo al rayo de luz lunar que penetraba por una ventana alta. Aquella figura desapareció como por una escalera aérea. Por la mañana, al desayunar, resultó que todos habían soñado con la víctima del crimen, excepto Harker y yo.

Acabé por quedar convencido de que el segundo de los hombres que yo viera en Piccadilly -si podía aplicársele la expresión “hombre”- era el asesinado, persuasión que tuve mediante su testimonio directo. Pero esto sucedió de una manera para la cual yo no estaba preparado.

El quinto día de la vista, cuando iba a cerrarse el capítulo de cargos, fue mostrada una miniatura del asesinado que se había echado de menos en el lugar del crimen, encontrándose después en un lugar recóndito donde el asesino había estado practicando una fosa. Una vez identificada por los testigos, fue pasada al tribunal y examinada por el jurado. Mientras un funcionario vestido con una toga negra nos la iba entregando a todos, la figura del hombre que yo viera en segundo lugar en Piccadilly surgió impetuosamente de entre la multitud, asió la miniatura de manos del funcionario, la puso en las mías y, antes de que yo viera la miniatura, que iba en un dije, me dijo, en tono bajo y profundo:

-Yo era entonces más joven y la sangre no había desaparecido de mi rostro como ahora.

Luego la aparición se situó entre mi persona y la del siguiente jurado a quien yo había de entregar la miniatura, y a continuación entre éste y el otro jurado, y así sucesivamente hasta que el objeto volvió a mi poder. Ninguno, salvo yo, reparó en la aparición.

Cuando nos sentábamos a la mesa y, en general, siempre que nos encerrábamos juntos bajo la custodia del señor Harker, los componentes del jurado discutíamos mucho acerca del asunto que nos ocupaba. El quinto día, terminado el capítulo de cargos y teniendo, por lo tanto, este lado de la cuestión completamente claro ante nosotros, nuestra discusión se hizo más reflexiva y seria.

Figuraba entre nosotros cierto sacristán -el hombre más obtuso que he visto en mi vida- que oponía a las más claras evidencias las más absurdas objeciones, apoyado por dos hombres de poco carácter que le conocían por frecuentar su misma parroquia. Por cierto que aquellas gentes pertenecían a un distrito tan castigado por las fiebres epidémicas, que más bien debían haber solicitado un proceso contra ellas como causantes de quinientos asesinatos, por lo menos. Cuando aquellos testarudos se hallaban en la cúspide de su elocuencia, que fue hacia medianoche, y todos nos disponíamos a abandonarlos e irnos a la cama, volvía a ver al hombre asesinado. Se detuvo detrás de ellos y me hizo una señal. Al acercarme a aquellos hombres e intervenir en su conversación, lo perdí de vista. Éste fue el principio de una serie interminable de apariciones, limitadas por entonces al vasto aposento en que el jurado se hallaba reunido. En cuanto varios se agrupaban para hablar, yo veía surgir entre ellos la cabeza del asesinado. Siempre que los comentarios lo desfavorecían, me hacía imperiosos e irresistibles signos para que lo defendiera.

Téngase en cuenta que desde el quinto día, cuando se exhibió la miniatura, yo no había vuelto a ver la aparición en la sala del juicio. Tres novedades se produjeron en esta situación tan pronto como entramos en el tribunal para oír el alegato de la defensa. En primer lugar mencionaré juntos dos de ellos. La figura permanecía continuamente en la sala y no me miraba nunca; dedicaba su atención a la persona que estaba hablando en el momento. El asesinato se había cometido mediante el degüello de la víctima, y en el curso de la defensa se insinuó la posibilidad de que se tratase no de un crimen, sino de suicidio. En aquel instante, la aparición, colocándose ante los mismos ojos del defensor, y situando la garganta en la horrible postura en que fuera descubierta, comenzó a accionar ante la tráquea, ora con la mano derecha, ora con la izquierda, como para sugerir al abogado la imposibilidad de que semejante herida pudiese ser causada por la víctima. La segunda novedad consistió en que, habiendo comparecido como testigo de descargo una mujer respetable, que afirmó que el asesino era el mejor de los hombres, la aparición se plantó ante ella, mirándola al rostro, y señaló con el brazo extendido la mala catadura del asesino.

Pero fue la tercera de las aludidas novedades la que consiguió emocionarme con más intensidad. No trato de teorizar sobre ello: me limito a someterlo a la consideración del lector. Aunque la aparición no era vista por la persona a quien se dirigía, no es menos cierto que tal persona sufría invariablemente algún estremecimiento o desasosiego súbito. Me parecía que a aquel ser le estuviera vedado, por leyes desconocidas, hacerse visible, pero por el contrario podía influir sobre sus mentes. Así, por ejemplo, cuando el defensor expuso la hipótesis de una muerte voluntaria y la aparición se situó ante él realizando aquel lúgubre simulacro de degüello, es innegable que el defensor se alteró, perdió por unos instantes el hilo de su hábil discurso, se puso extremadamente pálido y hasta hubo de secarse la frente con un pañuelo. Y cuando la aparición se colocó ante la respetable testigo de descargo, los ojos de ésta siguieron, sin duda alguna, la dirección indicada por el fantasma y se fijaron, con evidente duda y titubeo, en el rostro del acusado. Bastarán, para que el lector se haga cargo completo de todo, dos detalles más. El octavo día de las sesiones, tras una pausa que hacía diariamente a primera hora de la tarde para descansar y tomar algún alimento, yo regresé a la sala con los demás jurados poco antes que los jueces. Al instalarme en mi asiento y mirar en torno, no distinguí la aparición, hasta que, alzando los ojos hacia la tribuna, vi al espectro inclinarse por encima de una mujer de atractivo aspecto, como para asegurarse de si los magistrados estaban ya en sus sitiales o no. Inmediatamente, la mujer lanzó un grito, se desmayó y hubo que sacarla de la sala. Algo análogo sucedió con el respetable y prudente juez instructor que había incoado el proceso. Cuando la causa estuvo concluida y él comenzaba a ordenar los autos correspondientes, el hombre asesinado, entrando por la puerta de los jueces, se acercó al pupitre y por encima de su hombro miró los papeles que hojeaba el magistrado. En el rostro del magistrado se produjo un cambio, su mano se detuvo, su cuerpo se estremeció con el peculiar temblor que yo conocía tan bien, y al fin hubo de murmurar:

-Perdónenme unos momentos, señores. Este aire tan viciado me ha producido cierta opresión…

No se repuso hasta después de beber un vaso de agua.

A través de la monotonía de seis de aquellos interminables días, siempre los mismos jurados y jueces en el estrado, el mismo asesino en el banquillo, los mismos letrados en la barra, las mismas preguntas y respuestas elevándose hacia el techo de la sala, el mismo raspar de la pluma del juez, los mismos ujieres entrando y saliendo, las mismas luces encendidas a la misma hora cuando el día había sido relativamente claro, la misma cortina de niebla fuera de la ventana cuando había bruma, la misma lluvia batiente y goteante cuando llovía, las mismas huellas de los pies de los celadores y del acusado sobre el serrín, las mismas llaves abriendo y cerrando las mismas pesadas puertas; a través, repito, de aquella fatigosa monotonía que me llevaba a sentirme presidente de jurado desde una época remotísima, y me recordaba el episodio de Piccadilly como si se hubiera producido en tiempos contemporáneos a los de Babilonia, la figura del hombre asesinado no perdió ni un ápice de nitidez ante mis ojos. No debo omitir tampoco el hecho de que la aparición que designo con la expresión “el hombre asesinado” no fijó ni una sola vez la vista en el criminal. Yo me preguntaba repetidamente: “¿Por qué no lo mira?” Pero no lo miró.

Tampoco me miró a mí, desde el día en que se mostró la miniatura, hasta los últimos minutos de la vista, ya conclusa del todo la causa. Nos retiramos a estudiarla a las diez menos siete minutos de la noche. El estúpido sacristán y sus dos amigos nos originaron tantas complicaciones, que hubimos de volver dos veces a la sala para pedir que se nos releyesen los extractos de las notas del juez instructor. Ninguno de nosotros, y creo que nadie en la sala, tenía la menor duda sobre aquellos pasajes, pero el testarudo triunvirato, que no se proponía más que obstruir, discutía sobre ellos sólo por esta razón. Al fin prevaleció el criterio de los demás y el jurado volvió a la sala a las doce y diez.

Esta vez el muerto permanecía de cara al jurado en el extremo opuesto de la sala. Cuando me senté, sus ojos se fijaron en mí con gran detenimiento. El examen pareció dejarlo satisfecho, porque a continuación extendió lentamente, primero sobre su cabeza y luego sobre toda su figura, un amplio velo gris que llevaba al brazo por primera vez.

Cuando yo emití nuestro veredicto de culpabilidad, el velo se dibujó, todo desapareció ante mis ojos, y el lugar que ocupaba el hombre asesinado quedó vacío.

El asesino, interrogado por el juez, como de costumbre, acerca de si tenía algo que alegar antes de que se pronunciase la sentencia, murmuró algunas confusas palabras que los periódicos del día siguiente calificaron de “breves frases titubeantes, incoherentes y casi ininteligibles, en las que pareció entenderse que se lamentaba de no haber sido condenado con justicia, ya que el presidente del jurado estaba predispuesto contra él”. Pero la extraordinaria declaración que el acusado hizo en realidad fue ésta:

-Señoría: me constaba que yo era hombre perdido desde que vi sentarse en su puesto al presidente del jurado. Me constaba, Señoría, que no permitiría que saliese libre, porque, antes de que me detuviesen, él, no sé cómo, penetró una noche en mi habitación, se acercó a mi cama, me despertó y me pasó una cuerda alrededor del cuello.

FIN



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El futuro


Julio Cortázar

Y sé muy bien que no estarás.
No estarás en la calle
en el murmullo que brota de la noche
de los postes de alumbrado,
ni en el gesto de elegir el menú,
ni en la sonrisa que alivia los completos en los subtes
ni en los libros prestados,
ni en el hasta mañana.
No estarás en mis sueños,
en el destino original de mis palabras,
ni en una cifra telefónica estarás,
o en el color de un par de guantes
o una blusa.
Me enojaré
amor mío
sin que sea por ti,
y compraré bombones
pero no para ti,
me pararé en la esquina
a la que no vendrás
y diré las cosas que sé decir
y comeré las cosas que sé comer
y soñaré los sueños que se sueñan.
Y se muy bien que no estarás
ni aquí dentro de la cárcel donde te retengo,
ni allí afuera
en ese río de calles y de puentes.
No estarás para nada,
no serás mi recuerdo
y cuando piense en ti
pensaré un pensamiento
que oscuramente trata de acordarse de ti.



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Al sueño

John Keats

Suave embalsamador de la rígida medianoche,
que cierras con cuidadosos dedos
nuestros ojos que ansían ocultarse de la luz,
envueltos en la penumbra de un olvido celestial;
oh dulcísimo sueño, si así te place, cierra,
en medio de tu canto, mis ojos anhelantes,
o aguarda el ‘Así sea’, hasta que tu amapola
derrame sobre mi lecho los dones de tu arrullo.
Líbrame, pues, o el día que se fue volverá
a alumbrar mi almohada, engendrando aflicciones;
de la conciencia líbrame, que impone, inquisitiva,
su voluntad en lo oscuro, hurgando como un topo;
gira bien, con la llave, los cierres engrasados,
y sella así la urna silenciosa de mi espíritu.



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Caros, qual a consequência da ausência dos senadores, juízes do caso, durante a produção probatória relativa ao pedido de impedimento da presidente eleita? Se o "quorum" foi atendido, aberto o ato, as pessoas que se ausentaram podem votar? E aqueles que afirmaram a presença e saíram, praticaram algum crime? Se alguns senadores já estão convencidos, alguns tendo, inclusive, declarado como vão votar, antes mesmo da produção probatória, eles podem participar do julgamento? À luz da principiologia constitucional (imparcialidade, contraditório, ampla defesa, etc.) e demais princípios e regras (dentre eles, o que exige o contato direto do julgador com a prova), o que fazer? Ainda é possível falar em respeito ao devido processo legal ou mesmo em democracia diante das circunstâncias desse julgamento?

Rubens Casara